Home SaúdeSuperlotação Walfredo fica lotado após suspensão de cirurgias

Walfredo fica lotado após suspensão de cirurgias

Por AdrianoSantos
0 comentário 3 visualizações

Os corredores do Hospital Estadual Monsenhor Walfredo Gurgel, maior hospital público do Rio Grande do Norte, estão lotados de pacientes potiguares que aguardam cirurgias eletivas e ortopédicas. Até a tarde desta terça-feira (05), eram 85 pacientes nos corredores. Há casos de pacientes que esperam há pelo menos uma semana pelo procedimento. Segundo a direção da unidade, a lotação está associada à suspensão de procedimentos cirúrgicos em pelo menos três hospitais privados de Natal

“Quando param serviços que são prestados por outros hospitais, piora. Mesmo eles não tirando plenamente, a gente continuando com um pronto-socorro com um número importante no corredor, mas quando para fica o que está aí, 60, 80 pessoas no corredor”, explica a diretora do Walfredo Gurgel, Fátima Pereira.

De acordo com a diretora, o Walfredo Gurgel consegue fazer uma média de oito cirurgias de baixa e média complexidade por dia. “Aqui não atendemos só trauma ortopédico: temos neurocirurgia, TCE, AVC, abdomem agudo e traumático, tudo isso vem para as nossas cinco salas de cirurgia. Então gera esse caos quando qualquer  instituição que presta serviço para este hospital para”, acrescenta.

Enquanto esperam a regulação, os usuários ficam em macas nos corredores aguardando as cirurgias para poderem voltar para casa. Um desses casos é de Leilson da Silva, 38 anos, agricultor. Ele sofreu um acidente de moto há quatro dias, na estrada que liga Monte Alegre a São José de Mipibu, e desde então aguarda por uma cirurgia na clavícula, que ficou fraturada com o acidente.

“Ele está esperando a hora de operar. Já tem cinco dias. Ele ia na pista e tinha uma carroça na pista. Um carro vinha, encandeou a vista dele e ele caiu. Isso era para agir logo. Não era pra ficar esperando cair dinheiro na conta de algum doutor para poder operar não. A dificuldade é grande. Onde chega é desse jeito”, explica o pai, Leonízio José da Silva, 69 anos, agricultor.

Pelo menos três hospitais de Natal suspenderam as cirurgias eletivas, gerais e ortopédicas em virtude da falta de repasses e atualizações contratuais por parte da Secretaria de Estado da Saúde Pública do RN e da Secretaria de Saúde de Natal. 
Quem está aguardando por uma cirurgia é o curraisnovesnse José Antônio de Medeiros, de 54 anos. Ele estava com uma angioplastia marcada para ser feita no último dia 28 de setembro, mas segundo ele, recebeu um telefonema de que houve suspensão nas cirurgias no Hospital Rio Grande. Sem o procedimento, ele está impedido de executar suas ações diárias. 
“Avisaram que não houve repasse da verba para o hospital”, disse. “É esperar, porque estou de mãos atadas e não posso fazer nada”, acrescentou. O Hospital Rio Grande disse que não iria se pronunciar sobre a questão.

Um  dos hospitais com cirurgias suspensas é a Prontoclínica Paulo Gurgel, que possuía contrato com o Governo do Estado e Prefeitura do Natal até agosto deste ano, segundo o diretor administrativo, Vladimir Gurgel. De acordo com ele, o contrato estipula 186 cirurgias/mês e os repasses não estão acontecendo desde dezembro, além de o “extra-teto” não ter sido pago. A suspensão começou na quarta-feira (29/09). 

“Temos um pagamento bastante atrasado, um extra-teto porque vínhamos ultrapassando e não pode mais ultrapassar. O contrato também não foi renovado, não dá para trabalhar sem contrato”, explica. Segundo ele, ainda não há perspectiva de retomada dessas cirurgias.

“Recebi uma informação de que o novo contrato sairá no Diário Oficial de amanhã. Estamos torcendo. Mas não temos como retornar já amanhã porque tem outras questões, como os anestesistas e ortopedistas que também dependem, além do passivo. Não é só o contrato”, acrescentou. A reportagem apurou que o Hospital Memorial também suspendeu cirurgias desde a semana passada.

Outro hospital que suspendeu as cirurgias foi o Hospital do Coração. Em nota, a direção informou que suspendeu as cirurgias contratadas pela Secretaria Municipal de Saúde de Natal e Secretaria de Saúde Publica do Rio Grande do Norte (Sesap), em razão da falta de pagamento dos serviços prestados.

“Há 12 meses os pagamentos estão sendo incompletos e, ainda não houve, por parte do Governo do Estado e Prefeitura do Natal, sinalização sobre regularização da situação. Continuamos aguardando uma proposta concreta por parte das Secretarias”, disse o hospital, acrescentando ainda que o contrato estipula cerca de 120 cirurgias/mês, sendo cardíacas, implante de marca passo, Neuro-cirurgia e cirurgias oncológicas. “O valor é variável, depende do porte da cirurgia. Alem disso, são feitas cerca de 150 cateterismos/mês”, acrescenta.


Outro lado

A reportagem da TRIBUNA DO NORTE procurou a Secretaria de Estado da Saúde Pública do RN, que informou que a renovação dos contratos relativos ao Hospital Memorial e à Prontoclínica Paulo Gurgel são de responsabilidade do município de Natal. Os acordos com esses hospitais, segundo a Sesap, estão sendo pagos pela pasta. Com relação ao Hospital do Coração, a Sesap disse estar tentando um acordo com a direção para quitar os valores em atraso. A equipe de reportagem da TN entrou em contato com a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde de Natal através de mensagens de WhatsApp e ligações telefônicas. Até o fechamento desta edição, não houve respostas acerca dos questionamentos.

  Fila no Estado é de 13 mil cirurgias eletivas

A fila de cirurgias eletivas no Rio Grande do Norte é de até 13 mil procedimentos, isto é, de pacientes que aguardam uma cirurgia na rede pública do Estado. O levantamento é da Secretaria de Estado da Saúde Pública do RN (Sesap-RN). Um dos fatores que justificam essa espera por parte dos potiguares é a pandemia de coronavírus, que paralisou, por duas ocasiões, as cirurgias no RN. Em 2021, segundo a Sesap, foram feitas 982 cirurgias no Estado. O período pandêmico em 2020 fez com que o Estado tivesse uma queda de 26% em procedimentos ambulatoriais em relação a 2019, segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM). 

De acordo com o CFM, o Rio Grande do Norte deixou de fazer 348.061 procedimentos médicos ambulatoriais ambulatórios pelo Sistema Único de Saúde. Em 2020, foram 985.905 procedimentos contra 1.333.970 em 2019. Em comparação aos 16 estados do Norte Nordeste, o RN foi o 10º mais afetado com a situação. Só o Amapá e Distrito Federal apresentaram superavit entre todos os estados. A Sesap alega que a queda no número de procedimentos está diretamente associada às suspensões relativas à pandemia de Covid-19 e a necessidade do Poder Público de focar as atenções na estruturação de leitos para a pandemia.

Quem está aguardando por uma cirurgia desde o ano passado é o potiguar Isaías Carvalho da Silva, 33 anos. Ele sofreu uma tentativa de assalto em fevereiro de 2018 em Igapó, quando bandidos tentaram levar sua moto. Na ocasião, sofreu um tiro no fêmur e precisou fazer uma cirurgia às pressas. O procedimento foi feito, mas ele adquiriu uma infecção que abriu pequenos buracos em sua perna, que impedem de dobrar o joelho. Isso dificulta sua rotina de trabalho, como coletor de resíduos sólidos em Extremoz.

“Fiz minha cirurgia aqui no Walfredo, meu joelho não voltou a mexer. Não dobro a perna. Peguei a bactéria e vou ter que fazer uma raspagem no fêmur”, informa, explicando que está esperando a cirurgia desde fevereiro de 2020. O procedimento está marcado para o próximo dia 14 de outubro. 

Deixe um comentário