Citado por Bolsonaro, grupo médico faz ‘tratamento precoce’ por WhatsApp

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Citado por Bolsonaro, grupo médico faz ‘tratamento precoce’ por WhatsApp

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O movimento Médicos pela Vida, que participou de audiência com o presidente Jair Bolsonaro e o chamado “gabinete paralelo”, em 8 de setembro do ano passado, começou com um manifesto e depois se tornou uma “organização formal”.

O encontro teve participação de dois membros do CFM (Conselho Federal de Medicina) e do presidente da organização, o oftalmologista Antônio Jordão de Oliveira Neto, do Recife. Ele apareceu ao lado de Bolsonaro em foto divulgada nesta segunda (7) pelo Estadão.

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Lançada em fevereiro por meio de um manifesto publicado em oito jornais, a página Médicos pela Vida – Covid 19 funciona como veículo de divulgação para 103 médicos adeptos à prática, dos quais apenas duas são infectologistas. No site, também é criticada a “narrativa maquiavélica” feita sobre o encontro.

“Começou com médicos conversando entre si, se mobilizando, trocando ideias, até que se tornou uma organização formal”, diz Carlos Magagnini, assessor de imprensa do MPV. Segundo ele, o presidente da associação está incontactável, pois realiza atendimentos no interior de Pernambuco.

O assessor diz que a organização conta com amparo legal do CFM, que na semana em que começou a CPI, em maio, ratificou seu parecer 4/2020, no qual “delega ao médico e ao paciente, em comum acordo e baseados em suas prerrogativas constitucionais, a decisão sobre qual tratamento a ser realizado”, contrariando as diretrizes da OMS. Isso permite que médicos no Brasil, das mais diversas especialidades, prescrevam medicamentos como cloroquina, azitromicina e ivermectina, mesmo que não sejam eficazes contra a covid.

Procurado três vezes pela reportagem, o CFM preferiu não se pronunciar.

Na página institucional do Médicos pela Vida, se destaca uma nota de repúdio à CPI da Covid. Já clicando na aba “Encontre um médico”, chega-se a uma lista de nomes de 103 profissionais de 13 estados das cinco regiões do país, com foto, número do CRM e telefone de contato com WhatsApp.

A listagem ainda inclui o modo de atendimento, como presencial, por vídeo e até por telefone. É o caso da dermatologista Ana Paula Weber, de Macapá, especializada em rejuvenescimento facial. Ela tem 33 mil seguidores no Instagram e aparece na imagem com uma marca d’água que diz “homecare”, indicando que faz atendimento em domicílio. Mas não quis conversar com a reportagem.

Ao todo, o UOL entrou em contato com mais de 30 dos médicos listados na página. Alguns não atenderam o telefone nem responderam à solicitação por WhatsApp. Outros se recusaram a falar, ora alegando falta de tempo ou “motivo de viagem”, ora se recusando categoricamente.

“Não estou dando entrevista, cara”, se restringiu a dizer o ortopedista e traumatologista João Ricardo Alves Montanha, de Lins (SP), que aparece na página vestindo uma camiseta da seleção brasileira.

“Eu prefiro não dar entrevista porque aí teria que passar pelo meu advogado, fazer toda uma consulta prévia”, diz a anestesiologista Francine Xaubet Olivera, de Bento Gonçalves (RS), listada como disponível para atendimento presencial em Afonso Cláudio (ES).

Sem me identificar como jornalista, conversei com o ginecologista e obstetra Wilson Roberto Roberto Ponce. Mediante meu relato fictício de dor no corpo e 38º de febre, ele me telefonou.

Receitas por WhatsApp

Mesmo sendo informado de que eu não havia sido testado, me ofereceu uma receita com ivermectina, azitromicina, vitaminas C, D e zinco; uma receita com antialérgico e antiandrogênico, citando uma suposta relação entre a mortalidade por covid-19 e a calvície, o que pôde notar pela minha foto no WhatsApp; e uma terceira receita, com hidroxicloroquina.

Para retirá-las, eu só precisaria pagar R$ 250 pela consulta de cinco minutos por telefone e enviar um Uber até seu consultório em Santo André, no ABC paulista.

Também sem que eu me identificasse, a secretária do hematologista Roberto Luiz da Silva, da capital, informou que aceita convênio médico para teleconsulta sobre “tratamento precoce” que custa R$ 750 no particular e que a receita é digital.

Integram o grupo médicos das mais variadas especialidades, de cirurgião plástico a legista, passando por homeopata, além de muitos sem especialização definida, de acordo com o portal do CFM.

Um exemplo é Lucas Lago Borges, que atende presencialmente em Lauro de Freitas (BA) e usou seu CRM ao assinar nota de apoio à indicação de Damares Alves para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, mobilizada pela Rede Nacional em Defesa da Vida. William Alberto Capel, de Goiânia, é clínico-geral do Hospital da Polícia Militar.

Também listado no MPV, Fabio Lopes Bueno Netto, de Curitiba, largou a medicina em 2003 para abrir a empresa de máquinas de livros 24×7, de acordo com reportagem de 2006 da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Procurado pelo UOL, respondeu: “Não tenho autoridade para falar em nome da instituição [o MPV]”, antes de bloquear o repórter no WhatsApp.

Em geral, os “médicos pela vida” só aparecem no Google em guias locais, catálogos de planos de saúde, processos no JusBrasil ou em outras plataformas que defendem o uso de medicamento com ineficiência comprovada, como o perfil no Instagram Tratamento Precoce Brasil, criado em janeiro, com 181 médicos listados e quase 39 mil seguidores.

O MPV publicou nos principais jornais do país, em 23 de fevereiro, em forma de anúncio, um manifesto em defesa do “tratamento precoce” que hoje tem quase 6.500 assinaturas no site.

Entre informações desconexas e contorcionismo retórico e estatístico, o documento é um tratado de fake news, que até hoje defende a imunidade de rebanho, o que não se comprovou em nenhum lugar do mundo.

Pelo Código de Ética Médica do CFM, um profissional não pode ser punido por oferecer tratamentos que não estejam em seu campo de especialidade.

No entanto, aparece como vedado ao médico “divulgar informação sobre assunto médico de forma sensacionalista, promocional ou de conteúdo inverídico” (art. 112); e “divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por órgão competente” (art. 113).

“O profissional pode divulgar o contato de um médico, mas não com um fim específico. Um panfleto pode indicar um médico para ele te avaliar e a partir disso te propor um tratamento. Por exemplo, em caso de câncer, você não pode condicionar o contato do médico ao quimioterápico”, explica o psiquiatra Edoardo Vattimo, diretor de comunicação do Conselho Regional de Medicina de São Paulo.

A aplicação da penalidade, que pode ir de uma advertência à cassação do CRM, não é simples. “É preciso abrir uma sindicância, que, caso evolua para um processo, vai depender de fatores como depoimento de testemunhas, provas e antecedentes para o julgamento”, enumera.

Segundo ele, até abril, o Cremesp havia aberto 25 sindicâncias (cada uma pode incluir vários médicos) para investigar práticas irregulares no tratamento de covid-19. Ele, no entanto, vê o parecer do CFM como um salvo-conduto.

“Se os médicos querem prescrever remédios off label, eles podem por causa desse entendimento do CFM.”

“Parece que virou como se fosse torcida de futebol. Não vamos entrar nessa politização. As práticas médicas têm de ser baseadas nas evidências científicas disponíveis”, acrescenta.

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